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ASPAS COM O GESTOR, OUTUBRO 2026

Equipe Santa FéEquipe Santa Fé4 de novembro de 202610 min de leitura
ASPAS COM O GESTOR, OUTUBRO 2026

Prezados Cotistas,

Outubro terminou de um jeito que quase ninguém esperava. A reeleição do presidente Lula foi uma virada altamente improvável, pois o candidato que liderava o primeiro turno nunca havia perdido a disputa final. A reação do mercado foi brutal. Na leitura da gestão, o primeiro pregão após a votação foi o pior dia do mercado de capitais brasileiro desde o Plano Collor. Empresas de excelência chegaram a cair 40% em uma única sessão.

Toda a indústria de investimentos sofreu perdas significativas, e não deixamos de ser atingidos. Diante da deterioração das expectativas, tomamos medidas enérgicas para reduzir o risco das carteiras. Explicamos cada uma delas na seção de posicionamento.

Os próximos quatro anos trarão grandes desafios para o Brasil e suas empresas. O que não se alterou, entretanto, são as oportunidades: haverá ganhadores e empresas que saberão navegar em mares turbulentos. Nosso grande desafio a partir de agora será identificar quais serão essas oportunidades, com muita cautela e paciência. Os mercados continuarão voláteis. Isso traz inúmeras possibilidades de ganho para aqueles que tiverem uma boa leitura de cenário e a coragem e determinação de implementar as estratégias corretas. Seguimos firmes no nosso propósito de buscar as melhores soluções para os desafios que temos pela frente. Contamos com o apoio e a confiança de todos.

Brasil: as duas metades de outubro

Para entender o mês, é preciso olhar para as suas duas metades. No primeiro turno, o candidato Flávio Bolsonaro largou na frente, e partidos de direita saíram fortalecidos no Congresso e no Senado. Por isso, o mercado passou a atribuir maior probabilidade a uma alternância de poder e a uma política fiscal mais austera. As taxas de juros de longo prazo recuaram, o real se valorizou e o fluxo estrangeiro ajudou a bolsa a subir.

Nesse período, as empresas expostas à economia doméstica lideraram o movimento. Construção civil, varejo, serviços financeiros e transportes, setores muito sensíveis ao custo de capital, foram os mais favorecidos, e as empresas menores se destacaram. Já as exportadoras e as companhias de perfil defensivo ficaram para trás, pois o real mais forte reduz a receita esperada de quem vende em moeda estrangeira. Em nossa leitura, isso refletiu uma rotação de portfólios em busca de maior ganho de capital, e não uma piora dos fundamentos dessas empresas.

A segunda metade do mês inverteu o quadro. Com a reeleição do presidente Lula, a curva de juros longos voltou a abrir e o real se depreciou. O investidor estrangeiro, por sua vez, reduziu sua exposição à bolsa. As quedas foram mais intensas entre empresas com maior alavancagem financeira e de setores cíclicos. As exportadoras mostraram maior resiliência, e os setores de papel e celulose e de petróleo e gás avançaram 9% e 5% no mês, respectivamente. Em sentido oposto, educação caiu 27%, transportes e construção civil recuaram 22% cada, e consumo e varejo perdeu 21%.

O fluxo estrangeiro foi o principal agente dessas mudanças de direção. Como esse capital se concentra em ações de maior liquidez, sua saída pressionou as maiores companhias do índice. Além disso, em nossa leitura, o movimento do dia seguinte à votação refletiu mais posicionamento e fluxo do que fundamentos. Muito capital comprado havia entrado na bolsa, e a porta de saída era estreita. O desmonte acelerado dessas posições amplificou as quedas. Essa reversão já passou, e o mercado já precificou o resultado das urnas.

O tamanho do estrago

Em 26 de outubro, o EWZ, ETF que reúne a cesta de ações brasileiras cotadas em dólares, recuou cerca de 19,8% em um único pregão. Segundo estimativa divulgada pelo Brazil Journal, o movimento equivale a 8,4 desvios padrão, algo quase impossível nos modelos estatísticos convencionais. Há quem pondere, porém, que o risco eleitoral já estava parcialmente precificado. O fundo já havia registrado quedas semelhantes em 15 de outubro de 2008 (19,6%) e em 16 de março de 2020 (23,09%). No pregão seguinte, o EWZ subiu 0,4%.

No fechamento do mês, o Ibovespa registrou queda de 9,88%, embora ainda acumule alta de 4,22% no ano. O SMLL, índice de empresas de menor capitalização, caiu 17,45%, enquanto o EWZ, que replica a bolsa brasileira em dólares, recuou 12,86%. O dólar avançou 5,48% frente ao real, e o CDI rendeu 1,07%.

Juros, inflação e atividade

Os dados domésticos mostraram uma economia que perde força em um ambiente de inflação ainda pressionada. O IPCA de setembro subiu 0,82%, acima dos 0,73% esperados pelo mercado, e acumulou 4,58% em 12 meses. Já o IPCA 15 de outubro veio abaixo do esperado, com 4,62% em 12 meses. Na atividade, as vendas do varejo ampliado caíram 0,2% em agosto, contra expectativa de alta de 1,2%. Enquanto isso, o desemprego ficou em 5,2%, em linha com as projeções.

Nesse contexto, o Copom se reúne na primeira semana de novembro. A expectativa é de que o Banco Central interrompa o ciclo de cortes e mantenha a Selic em 13,75%. A projeção para a Selic em 2027 subiu de 12,50% para 13,75%. O motivo são as condições monetárias mais restritivas, a pressão inflacionária e o elevado endividamento de famílias e empresas. Por consequência, a projeção de crescimento do PIB de 2027 caiu de 1,2% para 0,5%.

A extensão da subvenção ao diesel ajuda a reduzir, no curto prazo, o repasse da alta internacional dos combustíveis aos preços domésticos. Ainda assim, a medida apenas atenua a pressão mais imediata. A permanência do petróleo em patamares elevados segue como risco para a inflação, para a política monetária e, portanto, para os ativos domésticos.

Exterior

O conflito no Oriente Médio segue sem perspectiva clara de desfecho. As restrições à oferta e às principais rotas marítimas mantiveram os preços do petróleo e de seus derivados em níveis elevados. Para a bolsa brasileira, o efeito é misto. De um lado, as produtoras de petróleo e as distribuidoras de combustível se beneficiam. De outro, o risco para a inflação global e para a trajetória dos juros pressiona o restante do mercado.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros inalterados em 28 de outubro, como esperado. A inflação ao consumidor de setembro subiu 0,65% no mês, acima dos 0,60% projetados, e chegou a 3,7% em 12 meses. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho mostrou menos força, com a criação de apenas 29 mil vagas fora do setor agrícola, contra 100 mil esperadas. O humor com o setor de tecnologia também deteriorou, e o Nasdaq caiu 5,30% no mês, enquanto o S&P 500 recuou 1,37%. O Dow Jones, mais concentrado em setores cíclicos e industriais, subiu 1,70%. Em reais, o IVVB11 avançou 4,28%, beneficiado pela alta do dólar. No início de novembro, as eleições de meio de mandato devem trazer algum alívio ao mercado.

Na China, o PIB do terceiro trimestre cresceu 4,5% em 12 meses, ligeiramente acima dos 4,4% esperados. A inflação ao consumidor, porém, ficou em 0,9%, abaixo do 1,0% projetado

Posicionamento

Após o resultado do segundo turno, revisamos as carteiras para um ambiente que deve seguir desafiador. No SF Scorpius, reduzimos a exposição às empresas mais dependentes do ciclo doméstico de juros e concentramos a carteira em companhias mais resilientes, com maior aderência ao Ibovespa. No SF Aquarius, reduzimos a exposição a ações brasileiras e encerramos as posições em juros longos. Enquanto a política fiscal do próximo mandato não ganha contornos, preferimos não carregar o risco de uma curva longa ainda pressionada. Em contrapartida, ampliamos a parcela em ativos atrelados ao CDI e ao dólar, mais adequada a um ciclo de juros e dólar mais altos.

A redução de risco não poderia ficar restrita ao Brasil. Por isso, também diminuímos nossas posições no mercado americano, onde o mês trouxe sinais pouco confortáveis. A tecnologia perdeu fôlego, com o Nasdaq em queda de 5,30%, a inflação seguiu pressionada e o mercado de trabalho mostrou menos força. As eleições de meio de mandato, no início de novembro, ainda estavam por vir. Em um momento de volatilidade extrema, não faria sentido manter risco elevado lá fora apenas por se tratar de outro mercado. Quem confia o capital à Santa Fé espera previsibilidade de nós.

Com isso, reforçamos uma posição de caixa significativa. A ideia é dar tranquilidade aos cotistas, para que não tenham surpresas negativas em um período de grande volatilidade. Além disso, o caixa preserva nossa liberdade para agir quando as oportunidades aparecerem.

Desempenho dos Fundos

Entre as posições que mais contribuíram positivamente para o resultado do mês, destacamos B3, Cyrela e JSL no Brasil, e Microsoft, Apple e JP Morgan no exterior.

O SF Aquarius FIM apresentou queda de 5,46% em outubro, impactado pela exposição a ações brasileiras e a juros longos, posições que reduzimos após o segundo turno. No acumulado, o fundo tem alta de 1,77% no ano e de 4,49% nos últimos 12 meses. Por sua vez, o SF Scorpius FIA teve queda de 20,67% no mês, ficando 10,79 pontos percentuais abaixo do Ibovespa. Esse resultado reflete o peso de empresas domésticas sensíveis a juros na carteira, justamente as mais afetadas pela reversão de expectativas. No acumulado, o fundo registra queda de 14,40% no ano e de 8,41% nos últimos 12 meses.

O SF Cash FIF RF rendeu 1,08% em outubro, acumulando 11,55% no ano e 14,03% nos últimos 12 meses. O resultado veio mesmo em um mês de forte estresse nos ativos de risco. Já o SF Global FIA recuou 0,84% no mês, acumulando alta de 8,82% desde o início da estratégia, em 11 de fevereiro. Como o fundo começou neste ano, não há rentabilidade anual nem histórico de 12 meses para comparação.

O ponto mais importante para novembro é a condução da política fiscal do novo mandato. Em nossa leitura, a reversão de expectativas já passou, e o mercado agora olha para frente. Acompanharemos o anúncio dos nomes que comporão a equipe econômica e as primeiras sinalizações sobre controle de despesas e trajetória da dívida pública. Esses sinais devem pesar mais sobre juros, câmbio e bolsa do que o resultado eleitoral em si.

Em segundo lugar, a decisão do Copom e o cenário de juros. A expectativa é de uma pausa no ciclo de cortes, com a Selic em 13,75%. Juros altos por mais tempo do que se imaginava mantêm elevado o custo de capital das empresas domésticas. Por isso, acompanharemos de perto o comunicado do Banco Central e os próximos dados de inflação.

Por fim, o ambiente externo segue exigente. As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, no início de novembro, devem trazer algum alívio. Ainda assim, o conflito no Oriente Médio e o preço do petróleo continuam como fontes de incerteza.

Enquanto isso, mantemos postura cautelosa e caixa elevado. Ampliar o risco novamente dependerá de mais clareza sobre a política fiscal e o rumo dos juros. Os mercados continuarão voláteis, e essa volatilidade traz oportunidades para quem tem boa leitura de cenário e disciplina para agir.

Equipe de Gestão Santa Fé

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