BIG TECHS, CAPEX RECORDE E O CICLO DE IA
As cinco maiores empresas de tecnologia do mundo divulgaram seus resultados nas últimas semanas e, apesar do desempenho operacional sólido, um dado chamou mais atenção do que receita ou lucro: o volume de capital destinado a investimento explodiu.
Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft, Tesla e Apple projetam investir juntas cerca de US$ 655 bilhões em capex no próximo ano. Para colocar em perspectiva, o montante supera o PIB anual da Suécia e equivale a cerca de um terço do PIB brasileiro. Não se trata apenas de expansão de negócios, mas da construção, em escala inédita, da base tecnológica que sustentará a próxima geração da economia digital.
A discussão deixou de ser se a inteligência artificial é relevante. A pergunta agora é outra: estamos diante do maior ciclo de investimento tecnológico desde a internet ou de um excesso típico de bolha?
Resultados fortes, mas com cheques ainda maiores
Os balanços mostraram operações saudáveis e geração de caixa consistente, mas acompanhadas por um salto relevante no capex.
A Amazon reportou forte crescimento da AWS e anunciou US$ 200 bilhões em investimentos voltados a data centers, chips próprios e nuvem. A Alphabet acelerou Search e Cloud e elevou o guidance para algo próximo de US$ 180 bilhões. A Meta segue altamente rentável em publicidade, mas projeta mais de US$ 120 bilhões para infraestrutura de IA. A Microsoft, com Azure crescendo perto de 40%, também ultrapassa US$ 120 bilhões.
O padrão é claro. Todas continuam gerando caixa, porém optam por comprimir o free cash flow no curto prazo para expandir capacidade computacional no longo prazo.
Para onde está indo todo esse dinheiro
O destino do capital não está em marketing ou produtos incrementais, mas em ativos físicos de grande escala, como data centers, GPUs, semicondutores, servidores e contratos de capacidade futura.
Os hyperscalers já reservam instalações que sequer foram construídas. A lógica é simples: melhor garantir capacidade agora do que correr o risco de gargalos quando a demanda explodir. Na prática, as Big Techs estão ocupando o terreno antes mesmo de a cidade existir.
Bolha de IA ou nova camada estrutural da economia
Esse movimento reacende o debate sobre bolha, em linha com ciclos históricos semelhantes. No século XIX, ferrovias foram construídas muito antes de a demanda justificar. Nos anos 1990, a fibra óptica passou por um excesso de oferta seguido de falências. Em ambos os casos houve exageros, mas a infraestrutura construída se tornou a base do crescimento das décadas seguintes.
A inteligência artificial pode estar repetindo esse roteiro. Existe o risco de overbuild? Sim. Os retornos podem demorar? Provavelmente. Mas, se a demanda estrutural se confirmar, quem controlar a infraestrutura terá vantagem competitiva quase intransponível.
Quem realmente se beneficia desse ciclo
Talvez a pergunta mais relevante não seja qual Big Tech vencerá a corrida da IA, mas quem fornece a infraestrutura para todas elas.
Fabricantes de chips, semicondutores, servidores, data centers, energia e componentes tornam-se os principais beneficiários do ciclo. Empresas como Taiwan Semiconductor, Nvidia, Broadcom e AMD tendem a capturar esse movimento. Independentemente de quem descubra o ouro, quem vende pás e ferramentas participa de toda a corrida.
O crescimento dessas companhias passa a depender menos de um vencedor específico e mais da expansão estrutural da demanda por capacidade computacional.
Conclusão
Os resultados recentes deixam claro que a inteligência artificial deixou de ser narrativa e se tornou investimento real em escala histórica. As Big Techs estão abrindo mão de parte da geração de caixa de curto prazo para construir domínio tecnológico de longo prazo.
Quando empresas desse porte escrevem cheques comparáveis ao PIB de países, não estamos diante de uma tendência passageira, mas de uma transformação estrutural da economia digital. Para o investidor, entender para onde esse capital flui pode ser tão importante quanto identificar o próximo grande modelo de IA. Em ciclos dessa magnitude, muitas vezes o maior retorno está em quem constrói a estrada.
Publicado por
Bernardo Gomes
Partner & Investment Analyst at Santa Fé Investimentos

