COMPRA NO BOATO, VENDE NO FATO: EXPECTATIVA, PREÇO E COMPORTAMENTO NO MERCADO FINANCEIRO
A máxima “compra no boato, vende no fato” sintetiza de forma precisa a dinâmica entre expectativas e preços nos mercados financeiros. Ela reflete o comportamento recorrente dos investidores de antecipar cenários positivos, incorporando rapidamente narrativas, rumores e probabilidades futuras às cotações dos ativos. Nesse processo, o preço passa a refletir não o fato em si, mas a expectativa construída em torno dele. Quando o evento finalmente ocorre, muitas vezes o mercado já está posicionado, abrindo espaço para frustração marginal ou simples realização de lucros.
Sob a ótica das finanças comportamentais, esse fenômeno está diretamente ligado a vieses cognitivos amplamente documentados. O excesso de confiança leva investidores a superestimar a precisão de suas previsões; o comportamento de manada amplifica movimentos, à medida que agentes seguem o fluxo dominante para não ficar de fora; e o viés de confirmação faz com que apenas informações favoráveis ao cenário esperado ganhem relevância. Como resultado, forma se um processo de retroalimentação entre narrativa e preço, no qual a expectativa positiva passa a justificar novas compras, inflando o ativo antes mesmo da materialização do evento.
Há inúmeros exemplos clássicos dessa dinâmica em eventos corporativos. Resultados trimestrais aguardados com grande otimismo frequentemente levam a uma forte valorização prévia do papel, mesmo quando o lucro efetivamente divulgado vem em linha ou levemente acima do esperado. O mesmo ocorre em anúncios de fusões e aquisições, aprovações regulatórias, entrada em novos mercados ou promessas de reestruturação. O boato entendido aqui como a antecipação racional ou não do evento sustenta o rali inicial, enquanto o fato marca o ponto em que o upside já foi amplamente capturado e o risco retorno se deteriora.
Em síntese, “compra no boato, vende no fato” não é uma regra mecânica, mas uma observação empírica sobre como expectativas são precificadas. Compreender essa lógica é fundamental para separar narrativa de fundamento e para avaliar se um evento futuro ainda representa assimetria positiva ou apenas a confirmação de algo já refletido no preço. Em mercados cada vez mais rápidos e informacionais, o verdadeiro desafio do investidor não está em antecipar o fato, mas em entender quando o consenso já o transformou em preço.
Publicado por
Gabriel Diniz Junqueira
Partner & Investment Analyst at Santa Fé Investimentos

