PETRÓLEO: TIPOS, PADRÕES E MERCADOS
Desde o século XIX, o petróleo vem desempenhando um papel fundamental na matriz energética global. A indústria petrolífera como a conhecemos começa nos EUA, onde o querosene passou a ser utilizado na iluminação urbana. Nos anos seguintes, o petróleo e seus derivados rapidamente assumiram o lugar do carvão mineral como força motriz da Revolução Industrial, alimentando fábricas, abastecendo veículos e aquecendo e iluminando ruas e residências. Assim, o petróleo consolidou-se rapidamente como uma das principais commodities da economia mundial, com importância que vai além do simples combustível, influenciando também a geopolítica, o desenvolvimento econômico e a inovação tecnológica, recebendo, no século XX, a alcunha de ouro negro.
O petróleo, ao contrário do que muitos pensam, não é um produto padronizado ao redor do mundo. Na realidade, cada poço produz um petróleo com composição química e características únicas, fatores que determinam seu valor de mercado, aplicações e custos de extração e refino. A composição química de um petróleo depende de fatores como a idade geológica, sendo que petróleos mais antigos tendem a ser mais densos e conter mais enxofre, as condições de formação, como temperatura, pressão e elementos presentes durante o processo, e o tipo de rocha geradora, que determina diretamente suas características químicas. Na indústria, os principais indicadores da qualidade de um petróleo são sua densidade e seu teor de enxofre, sendo por meio da quantificação desses fatores que os petróleos são posteriormente classificados após a extração.
Leve ou Pesado
A unidade padrão para medir o peso de um petróleo bruto é o grau API, em inglês API Gravity, uma escala criada pelo American Petroleum Institute que mede a densidade dos líquidos derivados do petróleo. Essa escala varia inversamente à densidade relativa, ou seja, quanto maior o grau API, mais leve é o petróleo. São considerados leves os petróleos com grau API acima de 31. Aqueles entre 22 e 31 são considerados médios. Abaixo de 22 são considerados pesados e, com grau API igual ou inferior a 10, extrapesados.
Petróleos leves possuem menor densidade e viscosidade e costumam ser mais valorizados por conterem uma fração maior de derivados de alto valor, além de apresentarem extração e refino mais simples. A baixa viscosidade facilita o bombeamento desse tipo de óleo para fora dos poços, bem como o transporte por oleodutos. Além disso, se mantêm líquidos e bombeáveis mesmo em temperaturas mais baixas, sendo mais fáceis de manusear. Normalmente, os petróleos mais leves são mais valiosos, pois exigem menos etapas e temperaturas de processamento mais baixas, além de produzirem maiores quantidades de frações leves, como gasolina, querosene e diesel, que apresentam maior valor comercial.

Figura 1: Escala de petróleos por peso (grau API) do mais pesado para o mais leve da esquerda para a direita
Petróleos pesados, por sua vez, possuem maior densidade e viscosidade, sendo mais espessos e difíceis de extrair, bombear e processar. Seu refino costuma ser mais caro e complexo, exigindo altas temperaturas e processos adicionais, e gerando produtos mais pesados, como óleo combustível, lubrificantes e asfalto. Por apresentarem maior dificuldade de refino e produzirem uma maior proporção de derivados com menor interesse de mercado, os petróleos pesados costumam ser negociados a preços inferiores aos dos petróleos leves.
Doce ou Azedo
Outro importante indicador da qualidade de um petróleo bruto é o teor de enxofre presente em sua composição. Quanto maior o teor de enxofre, mais azedo é considerado o petróleo, enquanto petróleos com menor teor são classificados como doces.
Para ser considerado doce, um petróleo deve conter menos de 0,5% de enxofre em peso, o que torna seu refino mais simples e menos poluente, sendo mais adequado para a produção de combustíveis. Por outro lado, os petróleos azedos podem conter até 5% de enxofre em sua composição. O refino desse tipo de petróleo tende a ser mais caro, uma vez que o enxofre forma substâncias nocivas e corrosivas, exigindo etapas adicionais para a captura e purificação desses compostos.

Figura 2: densidade e teor de enxofre de alguns petróleos brutos ao redor do mundo
Padrões internacionais
Uma commodity global tão relevante como o petróleo não poderia ser negociada sem algum tipo de padronização. Nesse contexto surgem o petróleo Brent e o petróleo WTI, que são os contratos mais negociados internacionalmente e atuam como benchmark para a precificação dos demais tipos de petróleo no mundo. Por exercerem essa função, são frequentemente mencionados quando investidores comentam as variações de preço da commodity no mercado internacional.
O petróleo Brent refere se a uma mistura de petróleos extraídos de campos localizados na região do Mar do Norte, como Brent, Forties, Oseberg e Ekofisk, localizados entre o Reino Unido e a Noruega. Ele é negociado na bolsa ICE Futures Europe, em Londres, e é o principal padrão de referência global, sendo amplamente utilizado na Europa, África, Ásia e também no Brasil. O Brent é um petróleo leve e doce, com baixa densidade e baixo teor de enxofre, o que facilita seu refino para a produção de combustíveis. Suas especificações técnicas são, aproximadamente, densidade de 38 graus API e teor de enxofre de 0,40%.
Já o petróleo WTI, West Texas Intermediate, como o nome sugere, é majoritariamente extraído da região do Texas, mas também nos Estados da Luisiana e Dakota do Norte, nos Estados Unidos. Assim como o Brent, é considerado um petróleo de alta qualidade, sendo ligeiramente mais leve e mais doce que sua contraparte europeia. O WTI é uma das principais referências do mercado de petróleo na América do Norte, sendo utilizado como padrão nos contratos futuros negociados na bolsa de Nova Iorque, a New York Mercantile Exchange (NYMEX). Suas especificações técnicas são, aproximadamente, densidade de 40 graus API e teor de enxofre de 0,25%.

Outros benchmarks
Além do Brent e do WTI, existem mais de 160 tipos diferentes de petróleo negociados nos mercados mundiais, embora a maioria tenha relevância apenas regional. Destacam se alguns contratos com maior relevância no mercado internacional.
Dubai Crude: O Dubai Crude, extraído dos Emirados Árabes Unidos, é uma referência para os mercados do Oriente Médio e da Ásia, especialmente na região da Ásia-Pacífico. Trata-se de um petróleo com qualidade semelhante porém inferior à do Brent, sendo mais pesado e com maior teor de enxofre.
Bonny Light: O Bonny Light, extraído na Nigéria, é um petróleo leve e de alta qualidade, utilizado como referência na África e também como uma referência adicional no mercado global.
OPEC Reference Basket: O OPEC Reference Basket é uma referência de preço composta pela média ponderada dos valores do petróleo produzido por diferentes países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Ele inclui uma combinação de petróleos de diversas regiões, como o Oriente Médio e o Norte da África, oferecendo uma visão geral do valor do petróleo produzido pela OPEP. Essa referência é importante porque reflete a composição e as condições do petróleo dos países membros, influenciando o mercado mundial e os preços internacionais.
Venezuelan Crude: O petróleo venezuelano é conhecido por ser escuro, espesso e altamente viscoso, sendo considerado um dos mais pesados e azedos do mundo. Seu refino exige grandes investimentos em refinarias especializadas para o adequado processamento.
Paradoxo da produção e refino de petróleo
A extração de petróleo de um poço, por mais complexa que seja, representa apenas o primeiro passo no processo de conversão do recurso bruto em produtos utilizados no cotidiano. Além do transporte, que já constitui um grande desafio logístico, a etapa mais crítica da cadeia de valor petrolífera é o refino do petróleo bruto em seus derivados. Um barril de óleo cru praticamente não possui utilidade sem passar por esse processamento.
Assim como ocorre em outros processos industriais que utilizam matérias primas naturais, a homogeneidade da matéria prima é um dos maiores desafios enfrentados pelas refinarias. Isso significa que as refinarias precisam ser projetadas e ajustadas para processar o tipo específico de petróleo que irão receber, sob o risco de operar com baixa eficiência, o que pode gerar prejuízos econômicos significativos.
Esse cenário pode gerar um paradoxo, como ocorre nos Estados Unidos, onde o país se torna simultaneamente grande importador e exportador de petróleo. Quando a infraestrutura de refino americana foi desenvolvida, a produção local de petróleo leve e doce estava em declínio, muito antes do avanço tecnológico proporcionado por técnicas como o fraturamento hidráulico (fracking) e a perfuração lateral, que viabilizaram a extração de petróleo de xisto (shale oil), também de alta qualidade. Como consequência, aproximadamente 70% das refinarias americanas foram projetadas para processar petróleo mais pesado e azedo, com maior densidade e teor de enxofre do que o produzido localmente.
Atualmente, os Estados Unidos precisam importar esses tipos de petróleo pesado, provenientes do México, da Venezuela ou das areias betuminosas do Canadá, para misturálos ao petróleo produzido internamente e otimizar o processo de refino. Como resultado, mais de 90% do petróleo importado pelo país é pesado e azedo, enquanto os Estados Unidos se consolidaram como um dos maiores exportadores mundiais de petróleo, comercializando o excedente de sua produção de petróleo leve e doce para mercados onde essa qualidade é mais valorizada.
O equilíbrio entre produção, refino e comércio de petróleo reflete a complexidade técnica e estratégica da indústria petrolífera moderna. A necessidade de adaptar a infraestrutura de refino às características específicas do petróleo disponível em cada região evidencia como fatores históricos, tecnológicos e geopolíticos influenciam a cadeia produtiva. No caso dos Estados Unidos, essa dinâmica ilustra como avanços tecnológicos podem transformar a matriz de produção e consumo ao mesmo tempo em que criam desafios logísticos e econômicos. Compreender essa estrutura é fundamental para analisar as tendências do mercado global de petróleo, antecipar mudanças na oferta e na demanda e desenvolver estratégias que promovam eficiência, sustentabilidade e segurança energética em um setor cada vez mais tecnificado e interconectado.
Publicado por
Pedro Luis Figueiredo
Partner & Investment Analyst at Santa Fé Investimentos

