GAMESTOP E O TWEET QUE ABALOU A FARIA LIMA

Na semana passada as ações da GameStop subiram 400% provocando perdas bilionárias em Hedge Funds americanos. Uma versão tupiniquim foi tentada com as ações do IRB e parece ter sido abortada pelos reguladores brasileiros. 

Nesses meus anos todos de mercado, já vi muita coisa. Alguns episódios eu tive a oportunidade de lembrar em artigos que escrevi. O mais recente foi o preço do barril de petróleo negativo que aconteceu em abril de 2020. Vale recordar alguns outros como a quebra do megainvestidor Naji Nahas e o episódio épico protagonizado por ele e pelos irmãos Hunt que provocaram um squeeze no mercado futuro da prata, isso sem falar outros tantos com opções de Petrobras, Vale e Paranapanema, as famosas OPT, OVL e OPM, tão populares no final da década de 80 sempre tendo Naji como pivô.

Os tempos mudaram, mas os mecanismos não. O que aconteceu na NYSE, na semana passada, com as ações da GameStop, é uma reedição de todos esses eventos e de muitos outros que tem como fundamento a fraqueza de algum ou alguns investidores que são colocados contra a parede por deterem posições maiores do que poderiam suportar ou, que até mesmo que o mercado suportaria, tudo isso exponencializado pelas redes sociais e seus efeitos disseminadores explosivos. Tudo se resume em forçar alguém a zerar uma posição a descoberto.

O Wall Street Bets foi um desses grupos que com milhões de participantes se uniram para promover um movimento de compra das ações da GameStop visando obrigar Hedge Funds enormes que estariam vendidos a descoberto a zerar suas posições por excesso de risco, seja por aumento de volatilidade ou mesmo do próprio preço da ação em súbita e abrupta ascensão.

Como resultado, o preço dos papéis da GameStop explodiu. Na segunda, subiu 126%. Na terça, o empresário Elon Musk, dono da Tesla, crítico das operações de venda a descoberto, publicou um Tweet que vai entrar para a história, na linguagem típica do fórum: “gamestonks”. Na quarta-feira GameStop subiu mais 434% com volume de ações negociadas perto dos 200 milhões por dia, o mesmo que das bluechips de tecnologia.

Hedge Funds começaram a sangrar, com perdas bilionárias, fazendo com que na quinta-feira, a SEC, reguladora Americana, alegando riscos sistêmicos, impedisse a compra de ações da GameStop por corretoras de varejo, que operam para pessoas físicas, como a Robinhood, fazendo com que o papel despencasse quase 50%. Na sexta-feira com as negociações ainda prejudicadas, mas sem a proibição da compra, as ações subiram 68%, fechando a semana com 400% de alta e mais de 1600% no mês!

Mas por que a alta das ações da GameStop e um Tweet do Elon Musk abalaram a Faria Lima e os gestores brasileiros?

Em meio a essa tempestade em Wall Street alguns grupos de investidores (com milhares, não milhões de investidores), tentaram se organizar, no Telegram, para fazer um movimento semelhante, principalmente com as ações do IRB. A ideia seria comprar as ações, pedir o retorno das alugadas e não alugar mais. Com isso as ações do IRB subiram 18% na quinta feira, nada muito anormal para o IRB.

Mas, uma enorme luz vermelha acendeu para os gestores acostumados a vender a descoberto volumes expressivos de ações de empresas como IRB. Os acontecimentos em Wall Street deixaram muito evidentes riscos antes nem considerados, tweets movendo mercados e movimentos coordenados de investidores mexendo com os preços, tudo isso não estava na conta de gestores e tesourarias. 

Dizem que diante desse risco, gestores, bancos, corretores, B3 e CVM se sentaram à mesa para decidir o que fazer para evitar que aqui se repetisse o movimento especulativo americano. Um exagero? Nos parece que sim. Basta comparar os números.

Na sexta um plano foi montado para deter a insurreição dos investidores pessoas físicas. Regras foram mudadas, investigações iniciadas e leilões e mais leilões implementados, foram 9 no total, em IRB na sexta feira.

Finalmente o ataque tupiniquim com flechas e tacapes às ações do IRB parece ter sido abortado pela B3 e pela CVM como o exército dos Red Coats sufocando os esfarrapados escoceses na Batalha de Culloden….

Mas qual o real perigo por trás de toda essa confusão?

Uma análise do episódio deixa claro que o risco maior ao sistema não é o investidor pessoa física. Não aqui no Brasil, onde esse movimento coordenado não teria como prosperar, mas a fragilidade da operação de venda a descoberto que ficou evidenciada com a especulação americana. Gestores e tesourarias locais conseguiram enxergar um risco que sempre esteve presente mas nunca foi levado a sério: a possibilidade de um squeeze de grandes proporções é real em ações dessas empresas relativamente pequenas como é hoje o IRB.

Se dessa vez foi um pequeno grupo de investidores pessoas físicas sem sucesso, aqui no Brasil, amanhã poderão Hedge Funds bilionários ser os protagonistas de uma ação coordenada e nesse caso as consequências serão bem diferentes!

Quanto à atuação dos reguladores nesse episódio, achamos muito importante que seja esclarecido se houve realmente tentativa de manipulação de preços identificando e punindo os responsáveis, mas achamos que as regras de negociação devem ser respeitadas e mudanças pontuais nos parecem perigosas e inconvenientes. No caso antecedente, desconhecemos o resultado final em relação à Squadra. Tanto quanto neste, naquele também deveria ser apurado pela Autoridade Reguladora e Fiscalizadora, se houve deliberada intenção de criar condições artificiais de formação dos preços no mercado… Isso é crime!

Vamos aguardar agora as cenas dos próximos capítulos!

Paulo Battistella Bueno
Paulo Battistella Bueno
Gestor/Sócio na Santa Fé Investimentos