BATERIAS E O FUTURO DO SETOR ELÉTRICO

O sistema elétrico brasileiro passou por uma transformação relevante nas últimas décadas. A matriz, historicamente dependente das hidrelétricas, passou a incorporar com velocidade fontes renováveis como solar e eólica. A energia solar, por exemplo, já representa mais de 15% da capacidade instalada, impulsionada pela queda superior a 90% no custo dos painéis na última década.

Esse avanço, porém, trouxe um novo desafio. A geração renovável é intermitente e tem provocado desequilíbrios estruturais no sistema. Durante o dia, há excesso de energia, enquanto no início da noite, quando a demanda aumenta, a oferta cai abruptamente.

Esse fenômeno resulta no chamado curtailment, em que usinas renováveis são desligadas mesmo estando operacionais. Em 2025, as perdas com esse mecanismo somaram cerca de R$ 6 bilhões, evidenciando a ineficiência do sistema atual. Ao mesmo tempo, o país precisa recorrer a usinas termelétricas no período noturno, elevando custos e emissões.

Nesse contexto, os sistemas de armazenamento em baterias, conhecidos como BESS, surgem como uma solução natural. A lógica é simples: armazenar o excedente gerado durante o dia e utilizá-lo no pico de consumo noturno.

Além de reduzir o desperdício de energia, os sistemas BESS aumentam a estabilidade da rede. Diferentemente das termoelétricas, que levam horas para entrar em operação, as baterias respondem em milissegundos, sendo essenciais para controle de frequência, suporte de tensão e equilíbrio do sistema.

Esse modelo resolve, simultaneamente, três problemas centrais: reduz o curtailment, alivia a pressão sobre a transmissão e diminui a dependência de fontes mais caras e poluentes.

A evolução tecnológica tem favorecido a expansão dessa solução. A queda no custo das baterias, impulsionada principalmente pela escala global de produção, tornou os projetos mais viáveis. O mercado brasileiro já reflete esse movimento, com crescimento relevante nos últimos anos.

Ainda assim, desafios permanecem. O alto custo inicial, a estrutura tributária, a vida útil limitada das baterias e a dependência de cadeias globais de suprimento são fatores que impactam a viabilidade dos projetos. Além disso, a eficiência do armazenamento não é total, com perdas naturais no processo de carga e descarga.

O avanço dos sistemas BESS no Brasil depende, em grande medida, do ambiente regulatório. O novo marco legal do setor elétrico trouxe avanços importantes ao reconhecer formalmente o armazenamento e permitir sua participação no sistema.

A realização do primeiro leilão dedicado à tecnologia, prevista para 2026, representa um passo relevante. No entanto, questões como dupla tarifação, modelo de remuneração e distribuição de custos ainda geram incertezas.

Esses pontos são críticos. A forma como forem definidos determinará se o armazenamento será uma solução ampla e eficiente ou uma tecnologia restrita e economicamente limitada.

A expansão das energias renováveis no Brasil revelou um novo desafio estrutural. O problema já não é gerar energia limpa, mas utilizá-la de forma eficiente ao longo do tempo.

Os sistemas de armazenamento em baterias representam uma resposta tecnicamente consistente para esse desequilíbrio. Mais do que uma inovação, tornam-se uma peça fundamental para a evolução do setor elétrico.

O potencial é claro. O desafio agora é garantir que o ambiente regulatório permita que essa solução se desenvolva de forma eficiente, equilibrada e sustentável.

Publicado por

Pedro Luis Figueiredo

Partner & Investment Analyst at Santa Fé Investimentos


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