JANELAS DE IPO: SPACEX, OPENAI E ANTHROPIC REDESENHAM O MAPA DA TECNOLOGIA
2026 está se tornando o ano dos maiores IPOs de inteligência artificial da história. SpaceX, Anthropic e OpenAI somam valuations que se aproximam de 4 trilhões de dólares em suas estreias ou planos de estreia no mercado acionário americano. As três empresas, no entanto, estão em estágios completamente diferentes dessa corrida. Entender essas diferenças é o que separa uma leitura superficial de uma análise útil para o investidor.
O Case da SpaceX
A SpaceX já é fato consumado. A companhia de Elon Musk estreou na Nasdaq em 12 de junho, no maior IPO da história, levantando 75 bilhões de dólares a um valuation de 1 trilhão e 77 bilhões de dólares. No primeiro dia de negociação, a empresa ultrapassou 2 trilhões de dólares em valor de mercado. Dessa forma, tornou-se a sexta maior companhia listada dos Estados Unidos.
O número, porém, conta apenas parte da história. Após atingir o pico em 16 de junho, os papéis acumularam queda de aproximadamente 17% do topo até a mínima. Desde a estreia, por outro lado, o papel acumula retorno positivo de cerca de 6%. Esse resultado não elimina a questão do valuation, mas contextualiza a volatilidade do período inicial.
OpenAI: o adiamento que o mercado não esperava
A OpenAI havia protocolado pedido confidencial à SEC buscando valuation de 1 trilhão de dólares. Esse número é superior aos 730 bilhões alcançados em rodada privada de fevereiro. O desempenho da SpaceX no pós-IPO, no entanto, mudou o cálculo.
Segundo o The New York Times, a correção das ações da SpaceX é um dos fatores que levam a OpenAI a considerar adiar seu próprio IPO para 2027. Consultores da listagem alertaram sobre a possível falta de entusiasmo de investidores de varejo. Em consequência, apresentaram a Sam Altman duas alternativas: esperar até 2027 ou reduzir a ambição de valuation para uma estreia mais rápida. Altman rejeitou a segunda opção.
Anthropic: a pioneira que ainda não tem data
A Anthropic protocolou seu pedido de IPO em 1º de junho, tornando-se a primeira das grandes empresas de inteligência artificial a buscar a bolsa formalmente. O movimento veio poucos dias antes de a companhia levantar 65 bilhões de dólares em rodada de investimento. Essa rodada foi liderada por Sequoia Capital, Altimeter e Capital Group, avaliando o negócio em 1 trilhão de dólares. A empresa, contudo, não divulgou cronograma definido. A decisão sobre quando e se realizará a oferta dependerá das condições de mercado.
IPOs de inteligência artificial: a pergunta que os roadshows não respondem.
O que esses três movimentos têm em comum vai além do tamanho. Juntas, as três estreias podem adicionar algo próximo de 4 trilhões de dólares em valor de mercado às bolsas americanas em poucos meses. Trata-se de um volume de absorção de capital sem precedentes desde a bolha das pontocom. A pergunta central, portanto, é simples: de onde virá a receita que justifica esses valuations.
A conta não fecha facilmente. A consultoria Bain and Company estima que o setor precisará gerar 2 trilhões de dólares em receita anual até 2030 para justificar os gastos atuais com infraestrutura computacional. Isso representa um déficit estimado em 800 bilhões de dólares frente às projeções hoje disponíveis. Além disso, modelos de código aberto vêm comprimindo os preços de processamento a uma taxa estimada entre 30% e 50% ao ano. Esse movimento pressiona as margens que qualquer empresa do setor consegue defender no médio prazo.
O paralelo com as pontocom e os smartphones
A história de outras ondas tecnológicas oferece um paralelo instrutivo. No auge das pontocom, o capital se concentrou em empresas de fachada como a Pets.com, que não sobreviveram ao estouro da bolha. Por outro lado, quem capturou a receita duradoura foi a camada de infraestrutura: a Cisco com seus roteadores, a Akamai com a entrega de conteúdo, e mais tarde a Amazon Web Services.
Na era dos smartphones, o padrão se repetiu. Os vencedores de longo prazo não foram majoritariamente os fabricantes de aparelhos, com a exceção notável da Apple. Em vez disso, foram as empresas donas das torres de telecomunicação, como American Tower e Crown Castle. Todas as operadoras precisavam remunerar essas empresas independentemente de qual fabricante dominasse o mercado.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro, o acesso a esse movimento já existe. A SpaceX conta com BDR negociado na B3 sob o código SPCX34, permitindo exposição direta sem necessidade de conta no exterior. A Anthropic e a OpenAI, por sua vez, ainda não têm data de estreia confirmada. Dessa forma, qualquer exposição hoje depende de fundos especializados em pré-IPO ou da espera por uma listagem que, no caso da OpenAI, pode não acontecer antes de 2027.
Na minha leitura, esses três movimentos representam um teste real para o mercado de inteligência artificial, não apenas para as três empresas envolvidas. O apetite do investidor de varejo e a capacidade dessas companhias de demonstrar caminho para rentabilidade serão determinantes. Em última análise, a comparação entre a narrativa dos roadshows e os números reais nos próximos trimestres vai definir se essa onda de capital se assemelha mais à internet que sobreviveu ao estouro da bolha ou à internet que desapareceu junto com ela.
Atenciosamente,
Bernardo Gomes.

